quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Livros e rastros

Estava aqui pensando na minha infância. Eu fui uma criança de apartamento, embora de apartamentos grandes, diferente dos que são construídos em São Paulo nos últimos 20 anos. Hoje existem condomínios de vários torres com diversos equipamentos de lazer em espaços comuns, mas nos prédios em que eu morei haviam apenas salões de festas tristonhos ocupados por reuniões de condomínios e estacionamentos que desafiavam nossa capacidade de jogar bola e andar de patins no meio dos carros. Brincávamos principalmente dentro de casa e meus pais nos davam liberdade de nos espalharmos pela casa, com nossos amigos e brinquedos, ainda que a bagunça gerasse muita reclamação (e uma ocasional surra).

Mas não éramos apenas nós que criávamos um cenário mutante nos cômodos da casa, tão diferentes dos ambientes de novela e revistas de decoração. Na minha casa os livros andavam, deslocavam-se das estantes para a mesa de centro da sala, para cima do cesto de vime que guardava cartolinas e tralhas de papelaria que usávamos em trabalhos escolares, para o sofá, para debaixo do copo de whisky onipresente ao lado da ponta do sofá que pertencia ao meu pai.

Eu nunca via meu pai estudando e trabalhando. Via apenas esses livros circulando pela casa e folhas de papel manuscrita brotando de seus rastros. Os livros eram como lesmas deixando uma trilha viscosa em forma de anotações quase ilegíveis da letra do meu pai.

Hoje quando eu chego em casa encontro meus próprios rastros. Os livros e xerox que eu vou largando pela casa, muitas vezes não mais onde os deixei, posto que as pessoas tem prioridade para ocupar o sofá e as cadeiras. quando eles voltam para a estante, raramente voltam para os mesmos lugares. Ainda bem, porque eu tenho certeza que os soldadinhos das letras do Foucault saem no meio da noite para bater boca com os soldadinhos do Bourdieu. E talvez os soldadinhos de Tolkien não gostem muito de conviver com os soldadinhos de Lovecraft.

(Estou lendo Benjamin... sempre fico sonhadora e verborrágica)

sábado, 22 de outubro de 2011

CARTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

Para o dia do ENEM

Crônica primeiramente publicada em 1968

Em primeiro lugar queríamos saber se as verbas destinadas para a educação são distribuídas pelo senhor. Se não, esta carta deveria se dirigir ao Presidente da República. A este não me dirijo por uma espécie de pudor, enquanto sinto-me com mais direito de falar como o Ministro da Educação por já ter sido estudante.

O senhor há de estranhar que uma simples escritora escreva sobre um assunto tão complexo como o de verbas para a educação – o que no caso significa abrir vagas para os excedentes. Mas o problema é tão grave e por vezes patético que mesmo a mim, não tendo ainda filhos em idade universitária, me toca.

O MEC, visando evitar o problema do grande número de candidatos para poucas vagas, resolveu fazer constar nos editais de vestibular que os concursos seriam classificatórios, considerando aprovados apenas os primeiros colocados dentro do número de vagas existentes. Esta medida impede qualquer ação judicial por parte dos que não são aproveitados, não impedindo no entanto que os alunos tenham o impulso de ir às ruas reivindicar as vagas que lhes são negadas.

Senhor ministro ou senhor presidente: "excedentes" num país que ainda está em construção?! E que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas Faculdades os que tiram melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela. Eu mesma fui universitária e no vestibular classificaram-me entre os primeiros candidatos. No entanto, por motivos que aqui não importam, nem sempre segui a profissão. Na verdade eu não tinha direito à vaga.

Não estou de modo algum entrando na seara alheia. Esta seara é de todos nós. E estou falando em nome de tantos que, simbolicamente, é como se o senhor chegasse à janela de seu gabinete de trabalho e visse embaixo uma multidão de rapazes e moças esperando seu veredicto.

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou Presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime. Perdoe a violência da palavra. Mas é a palavra certa.

Se a verba para universidades é curta, obrigando a diminuir o número de vagas, por que não submetem os estudantes, alguns meses antes do vestibular, a exames psicotécnicos, a testes vocacionais? Isso não só serviria de eliminatória para as faculdades, como ajudaria aos estudantes que estivessem em caminho errado de vocação. Esta idéia partiu de uma estudante.

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra "excedente". Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentiu desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.

O senhor sabe o preço dos livros para pré-vestibulares? São caríssimos, comprados à custa de grandes dificuldades, pagos em prestações. Para no fim terem sido inúteis?

Que estas páginas simbolizem uma passeata de protesto de rapazes e moças.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Rocco, 1999

sábado, 20 de agosto de 2011

Derrapagens

A insatisfação cultivada torna-se rapidamente cegueira. Não sei, talvez seja preciso vomitar algum fel para poder se livrar dele e percebe-lo como algo danoso e sujo, mas isso deve ser feito sem mirar os outros, sem encarrega-los de pesos que não lhes cabem. Mas também devem existir formas de purificação que não sejam excretórias, mas que possam transformar essa matéria ruim em coisas menos turvas, mais generosas.

Ontem fui ao psicólogo e passeei em meio a representações ruins de “como as coisas funcionam”. Acho que isso em parte se deve a uma certa raiva acumulada, que encontra pouca expressão. Sinto tristeza, impotência, esperança, dor, em relação ao que aconteceu à minha prima. Mas não consigo pensar em seu agressor, e é provável que eu esteja com muita raiva dele. Só não consigo senti-la. E assim, acho que minha visão de mundo vai se negativando, e essa raiva perdida vai encontrando suporte em matrizes discursivas que perpetuam violências. É um processo sutil.

Meu psicólogo me perguntou se eu achava que os homens eram idiotas porque eram todos iguais (estávamos falando sobre atração, conquista, relacionamentos, etc.), e eu respondi que eram todos idiotas, mas não porque eram todos iguais. Claro que eu não acho isso, e não sei direito porque o disse. Ao dizer, contrariava a mim mesma pensando com muita ternura nos meus amigos homens, que são pessoas maravilhosas. Eu estava sendo idiota.

Acho que nos últimos tempos estou mais tensa em relação aos relatos de amigas reclamando de seus namoros, rolos, etc. e menos compreensiva com os relatos de amigos. É uma questão de afinação do ouvido, que simplifica relações muito variáveis. É horrível falar – como eu estava falando - em “mercado afetivo e sexual”, que classifica relações tão atomizadas e ao mesmo tempo nulas, fazendo de todos tábulas rasas de “padrões culturais” (em uma formulação rasa). Visões de mundo machistas facilitam comportamentos insensíveis de ambos os lados, e fazem com que ambos os lados sofram. Eu sei disso, percebo e vivo isso diariamente. O problema é que às vezes isso nos inunda também. Estamos correndo o risco de derrapar o tempo todo. Como sempre, estou rememorando a última sessão. Estou bem envergonhada das coisas que disse ao psicólogo, porque elas denotam que eu andei pensando e agindo por meio desses entendimentos, mesmo sem perceber. Vômito feito, bola pra frente.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Violência ou a esperança de regeneração

A violência para mim sempre terá algo de imponderável, de inexplicável. Sempre me alcança como um choque, como uma ruptura de sentidos. Pensando na minha pesquisa, nos temas que sempre me tomam, fica claro que eu busco entender como a violência produz sentidos também, ou como coloniza sentidos outros, revira significantes e se autopropaga. Mas enquanto experiência vivida, a violência tem algo de ruído mudo, como um zumbido que resta nos ouvidos após uma explosão.

Há dois meses minha prima foi brutalmente atacada por seu marido. Ela mora longe, em outro continente. Sabíamos pouco sobre seu cotidiano e o casamento que tinha, embora minha mãe e avó tivessem por duas vezes passado um tempo lá. Além de casados, ele e ela trabalhavam juntos com turismo, viviam perto de uma reserva ambiental. Ele, no entanto, em determinadas épocas a deixava por causa de drogas, sumia por uns tempos. Parecia-nos que ela o amava muito, e ele era meio indiferente. Apenas isso.

Nossa prima passou o Natal e o Ano Novo aqui no ano passado. Trazia consigo todo o tipo de paranoia que se espalha lá fora sobre o Brasil, a ameaça em cada esquina, o risco de esconderem drogas em sua bagagem no aeroporto, etc. Nós a avisamos dos cuidados que todos temos com aquela certa indiferença paulistana. Ela por fim odiou o trânsito e o barulho de São Paulo, mas curtiu uma praia no Rio de Janeiro, bem na época da invasão policial no Morro do Alemão. Foi com minha mãe para Foz do Iguaçu e descansou dos problemas na calmaria de Rio Pardinho. Havia algo que fazia com quiséssemos que ela ficasse, que deixasse o marido e viesse para o Brasil. Talvez uma mágoa contida em sua discrição. Mas construir uma nova vida do zero no Brasil parecia completamente inverossímil para ela, e para nós todos. E ela foi-se embora para longe, para o trabalho e para o marido, tentando estabelecer contato com as agências daqui para montar pacotes de viagens. Então, o ataque. A vida interrompida.

De longe, as notícias chegam a conta-gotas. Os cachorros impediram que ele a matasse. Porém, nossa prima esteve em coma por um mês e, ao acordar, está completamente paralisada. Não sabemos se o quadro dela tem perspectiva de melhora ou não. Outros primos mandam emails breves, e minha mãe me traz as notícias, que infelizmente não mudam muito. Do cara, sei apenas que está preso. Não preciso saber mais.

A tristeza lateja. Vem em ecos. Vem em imagens-memórias da minha prima na sala de casa, xingando o preço dos hostels no Rio; brincando com o cãozinho da minha avó; lendo um livro com o óculos na ponta do nariz. O coração aperta diante da impotência, da inevitabilidade do imprevisível. Era assim tão imprevisível?

Correm as lágrimas, e como correm, incapazes de limpar a dor e a violência. Resta a esperança rasgada de que ela possa se recuperar o máximo possível. Às vezes eu me pego pensando que queria ter fé, e rezar pra algum poder superior intervir nesse absurdo. Minha esperança não tem a ver com fé, e acho que não precisa. É apenas o que solda sentidos tão partidos pela violência, tentando regenerá-los por meio dessa força vital que é a família.

domingo, 17 de julho de 2011

Começo de campanha

Tive a ideia de fazer um merchan básico para o jogo que eu quero mestrar. Então vou passar a postar aqui e no facebook uns minicontos, prelúdios de NPCs.



Ela acordou com a luz do sol ainda incomodando os olhos. Tentou se virar para um lado, para outro, e desistiu, jogando o braço por cima do rosto para garantir um pouco mais de noite na sua vida. Sua outra mão passou pelo elástico da calcinha e se pôs a masturbar-se. Todos os dias se masturbava por horas antes de se levantar. Não adiantava, quando estava sozinha acabava sempre fantasiando com cenas de violência e a agonia a fazia gozar. Era importante gozar antes de começar a noite de trabalho, seria a única gozada do dia, no sossego de seu quarto. Depois, jogou-se em cima do vaso sanitário para mijar, sentindo escorrer sua boceta molhada. No banheiro estava pendurado um mural de cortiça, com fotos de várias épocas, mostrando rostos bonitos e felizes. Todos já tinham gozado com ela de uma noite de sexo, uma garrafa de cerveja ou uma fogueira na praia. Chamava aquele mural de Albergue de Juventude. Também chamava sua boceta de Albergue da Juventude, certificada internacionalmente. Tomou banho sem molhar a mão esquerda, porque queria continuar sentindo seu cheiro durante o expediente, se vestiu para a calçada e saiu. Esqueceu o celular do lado da cafeteira ligada. Parou na esquina de sempre e ficou acompanhando o movimento dos carros, vez em quando retocando o batom. O vento frio ressecava seus lábios, e os clientes podiam reclamar.

Do outro lado da rua ele caminhava, passos ritmados, buscando os pontos iluminados pelos postes. A cidade ainda preservava na noite o aroma dos últimos raios de sol do entardecer, que ele sorvia faminto, aguçando os sentidos. Sentia também o cheiro dos trabalhadores, apinhados dentro dos ônibus, voltando para suas casas e suas famílias, para o jantar e a novela. Ele os amava a todos. Hoje não ia passar futebol na tv, as pessoas tinham menos assunto. Ele suspirou, tristonho. Ao menos encontraria seus irmãos, e poderia conversar com eles, e tocá-los com a palavra do Senhor. Teve uma enorme consciência da Bíblia que carregava nas mãos. Pensava em falar esta noite sobre Daniel na cova dos leões, uma mensagem tão cheia de esperanças. Passou pela mulher do ramo na esquina e sentiu o cheiro do seu sangue. Era doce e repleto de humanidade e pureza. Ele se deteve, olhando para o outro lado da rua. Consultou o relógio, havia tempo. Os fiéis sentiam o cheiro da humanidade, sentiam-se compelidos e confortados por ele. Aproximou-se da moça com generosidade e recebeu com paciência o olhar desconfiado que ela lhe lançara. Trocaram algumas palavras e se afastaram para o recuo escuro de um estacionamento. Gentilmente, ele a puxou pelos cabelos e mordeu seu pescoço, tomando o cuidado de não sujar a camisa social branca que escolhera para a pregação de hoje. Deixando-a caída ali, onde os moradores de rua não a roubariam, ele atravessou o Viaduto do Chá e caminhou até a Praça da Sé. Logo formou-se um quadrado de ouvintes ao seu redor, atraídos por aquele cheiro que emanava, de humanidade e pureza. Aos poucos, mais transeuntes paravam e se comoviam, sentindo que a palavra do Senhor os alcançara e que Jesus os salvaria.

domingo, 26 de junho de 2011

Promessas de semestre novo

Estou querendo reintroduzir a literatura na minha vida. Como fazer isso? É simples. Vou escrever aqui uma pequena lista de tipos de livros que eu quero ler até o final do ano. Quais livros? Depende. Como estabelecer cotas de leitura é algo tosco e improdutivo, resolvi começar a pensar em modalidades de livros, para depois escolher os títulos e ir atrás deles (antes que o meu exíguo cartão de crédito perca sua validade e eu pare de me deslumbrar com os sebos virtuais...).

1) Um livro de fantasia/sci-fi/terror ou afins brasileiro
Quero mapear um pouco o que anda sendo feito aí. Eu não sou uma insider do fandom mas tenho ouvido falar de vários lançamentos. No ano passado dei um parecer para uma editora, e não recomendei a publicação de um livro de fantasia que eu achei terrível. Quero ver se há coisa melhor por aqui. Como livro número zero da minha busca, já começado:

2) Um livro de fantasia/sci-fi/terror ou afins gringo, de autor nunca lido.
Porque afinal de contas, nem só de Tolkien se vive nesse mundo.

3) Um livro de fantasia/sci-fi/terror ou afins clássico
Duna? Wheel of Time? Neuromancer? Tem vários clássicos que é uma vergonha eu ainda não ter lido.

4) Um grande livro da literatura mundial
Para eu exercitar meu pedantismo nos bares. Faz tempo que eu abandonei a ambição de mostrar erudição em minha biblioteca. Mas eu não me perdoo por exemplo por ter largado o Dom Quixote no meio. Eu estava de fato gostando. Mas acho que vou pegar algo novo.

5) Um livro que tenha sido publicado depois de 2010
Up to date, man. Gente antenada é assim. \o/

6) Um livro de poesias de alguém que eu ainda não conheço

7) Um livro de contos brasileiro
Gosto dos e das contistas do Brasil. Meu parco conhecimento faz com que goste mais de contistas que de romancistas daqui.

8) Um livro da Virgínia Woolf que eu ainda não tenha lido.
Orlando, por exemplo. Estou devendo...

Quero ver se terei cumprido minha meta até 31 de dezembro

sábado, 4 de junho de 2011

Peitos de vadia, peitos de mãe, falas de peitos

Hoje está rolando também a Marcha das Vadias. Eu gostaria de ter ido, mas esta maldita gripe reduz meu feminismo ao sofá e à internet. Na internet então, a bola da vez são as consequências de uma má conduta do Itaú Cultural ao proibir uma mãe de amamentar no espaço da exposição. Isto rendeu um tipo de protesto chamado mamaço, e piadas infelizes de toda sorte, inclusive as piadas do CQC que a Lola criticou e que fez com que ela fosse ameaçada de processo. Vári@s coleguinhas repassaram os links pelo facebook e afins. Achei muito interessante a sobreposição das reivindicações de vadia e mãe, já que são papeis que costumam ser opostos para o pensamento machista tradicional, mas que se referem intimamente à autodeterminação das mulheres sobre seus corpos.

Sabadão a tarde. Eu em casa no sofá, gripada e escrevendo a qualificação. Alguns livros abertos em volta e a tv ligada para fazer barulho de fundo. Está na Globo porque depois começaria o jogo Brasil X Holanda. Antes, Luciano Huck diz fazer uma homenagem à tv japonesa e coloca três marmanjos da produção do programa para deslizar numa espécie de plataforma. O desafio é dar o impulso certo para ir de cara nos seios de uma das assistentes de palco, sem tocar nela. A moça está de kimono, com o decote à mostra das câmeras, esperando para ser atingida e avisando que pode socar o participante que exagerar, mas quando o primeiro candidato tromba com ela, ela apenas retorna à sua posição, esperando o próximo. Luciano Huck ainda faz questão de salientar que os homens estão atrás do que Deus lhe deu e o cirurgião complementou, chamando o corpo da moça de Vale do Silício. Peitos comprados. Peitos artificiais. Peitos mercadoria. Peitos bem de capital. Peitos bem de consumo. Peitos na mídia. Peitos como alvo. Peitos à mostra como ferramenta de trabalho da assistente de palco. Os homens garantem que participam do jogo pelo prêmio (uma tv de plasma), mas suas expressões denunciam que o constrangimento pelo qual passam tem um quê de tara, a mesma tara que a moça emula (como emula todos os sábados a tarde). O ganhador para rente aos peitos, fazendo biquinho. Luciano se diverte com o atrapalhamento da coisa toda. Ele está tranquilo. Ele acaba de exibir uma reportagem em que premia a família de uma das vítimas de Realengo com tantos mil reais. Ele tem a consciência de um homem bom.

No twitter ouço comentários masculinos, concordando comigo que o programa é degradante, acrescentando que não deveria passar num horário em que crianças assistem tv. Mas que eles adoraram ver os peitos. Belos peitos. Qual é o problema de exibir isto às crianças se os homens gostam? A classificação indicativa visa conteúdos de sexo e violência. É sexo usar o corpo de uma mulher como alvo de trombadas? É violência? Qual a idade certa de desenvolvimento do discernimento para isso? Afinal de contas, os homens gostaram. E se as crianças aprenderem a buscar este tipo de aprovação e de asseguração de seu valor? E se as crianças aprenderem a desejar assim? A serem assim desejadas? Os homens gostaram. Eles não estão também em formação? Não estamos o tempo todo, até morrer? Não estamos formando prazeres e taras, reforçando estímulos, ao retratarmos ou estarmos expostos a este tipo de coisa? Estamos. Ensinando a crianças e adultos algo sobre quem é sujeito e quem é objeto de desejo. Ensinando sobre os peitos.

Ou será que a brincadeira do Huck é um exercício da autodeterminação? Está a assistente fazendo o que quer quando se coloca na posição de reforçar desejos masculinos que tratam mulheres como objetos? Não pode ela ver vantagens nisso, seja pelo salário ou talvez por outras recompensas e prazeres que terá aprendido em seu trabalho? Será também sua tara esse pseudo gang bang televisionado de caras nos seus peitos, apesar de dizer que iria socá-los? É possível esta releitura individual frente a conteúdos socialmente cristalizados? Não sabemos porque a assistente não fala. Só sabemos o que ela diz com seu sorriso, sua dança, sua gestualidade. E essas três formas de enunciação se relacionam com o seu trabalho. Ela está no papel de meio, não de emissor. Pode escapar disso? Quer escapar disso? Escapar dos frutos de seus peitos?

Fala-se sobre sem falar-se de. A estratégia de reforçar dicotomias sem provocar polêmicas. O Caldeirão do Huck recoloca os peitos onde eles devem estar. Em exibição, para a diversão e o deleite de marmanjos que neles trombam ou sonham em trombar. Peitos na sociedade de escassez. Ele não fala de mamaço, não fala de vadias. Não fala de autodeterminação. Fala dos peitos e do que os homens podem fazer por eles e por meio deles. Talvez mulheres da produção também quisessem tvs de plasma. Talvez mulheres da produção também quisessem os peitos da assistente. Talvez quisessem o corpo de um homem. Não sabemos. Não se fala sobre isso. Os caçadores de peito são homens. Os peitos são o objeto alvo.

(A propósito. O jogo foi chatérrimo. Ando cada vez mais desanimada com futebol...)